 A caminho da sexta grande extinção
Pela primeira vez na história das espécies, o desaparecimento em massa de várias formas de vida na Terra não será resultado de eventos físicos, de perturbações nos ecossistemas derivadas de fenômenos de causa natural. Diferentemente das cinco grandes extinções que ocorreram nos últimos 420 milhões de anos, sendo a mais famosa a dos dinossauros 65 milhões de anos atrás, a sexta será essencialmente creditada na conta de um agente biológico: o homem. "Somos o equivalente atual do meteoro que matou os dinossauros", comparou o paleontólogo e biólogo evolucionista Niles Eldredge, um dos curadores do Museu de História Natural de Nova York, em palestra realizada no dia 01/03, dentro do ciclo de eventos culturais organizados por Pesquisa FAPESP para a exposição Revolução Genômica
Com o falecido paleontólogo e biólogo evolucionista Stephen Jay Gould, Eldredge formulou a teoria do equilíbrio pontuado, segundo a qual a evolução das espécies não se dá forma constante, mas alternando longos períodos de poucas mudanças com rápidos saltos transformativos. Transformações foram, aliás, o tema central de sua palestra. Desde o surgimento dos primeiros humanos modernos na África há cerca de 100 mil anos, o Homo sapiens se espalha por todos os continentes e altera a paisagem do planeta como nunca se viu e numa rapidez sem precedentes. Explora em excesso as espécies da natureza, polui o ambiente, desorganiza os biomas ao introduzir formas de vida de um ecossistema em outro e sua população não pára de crescer, aumentado ainda mais a pressão sobre os recursos globais. "Ninguém quer destruir o planeta, mas estamos destruindo-o rapidamente", afirmou Eldredge, curador da exposição Darwin, hoje em cartaz no Rio de Janeiro depois de ter sido exibida em São Paulo.
Segundo o pesquisador, a sexta extinção - um tema, sem dúvida, sujeito a controvérsias - entrou em sua segunda fase há 10 mil anos, quando o homem, após ter fincado pé nos principais pontos do globo, inventou a agricultura, tornou-se sedentário e mudou drasticamente sua relação com os biomas. Em vez de ser apenas um caçador-coletor, dependente do que a natureza lhe oferecia, o homem começou a plantar os alimentos de que necessitava. "Saímos dos ecossistemas locais e passamos a não depender deles para comer", disse Eldredge. "Começamos a produzir nosso alimento. Não comemos mais frutas das árvores." Um dos principais efeitos do sucesso desse modelo é o aumento da população do planeta. Hoje há mais de 6 bilhões de pessoas na Terra. Mas quantos indivíduos o planeta pode suportar? "Depende do padrão de vida que escolhermos", afirmou o paleontólogo. "Se pensarmos num padrão de classe média, mais ou menos confortável, acho que a Terra tem condições de suportar apenas 2 bilhões de pessoas."
O maior aspecto negativo da supremacia do Homo sapiens como espécie dominante na Terra é a crise atual da biodiversidade, que, de acordo com algumas estimativas, pode estar levando ao desaparecimento de 30 mil espécies por ano - e à sexta grande extinção, da qual nossa espécie talvez não escape, segundo Eldredge. Mas extinções não fazem parte da história evolutiva, pode-se contra-argumentar? É verdade. O sumiço de algumas espécies abre caminho para o surgimento ou a ascensão de outras. Os mamíferos sempre viveram na sombra dos dinossauros - ambos os grupos de animais surgiram mais ou menos ao mesmo tempo - e só passaram a ocupar lugar de destaque no planeta com o desaparecimento dos grandes répteis. Mas também é verdade, como lembrou o paleontólogo, que as extinções em massa somente terminam quando a causa central delas desaparece. No caso da sexta extinção, o fator primordial que a impulsiona seria o próprio homem. Logo ...
Mas não se deve pensar que tudo está perdido, como fez questão de lembrar o próprio pesquisador. "O primeiro passo para resolver o problema é reconhecê-lo", salientou. "Ninguém está desistindo e há motivos para esperanças." O paleontólogo defende a conservação dos biomas e a estabilização da população do mundo. "Precisamos tratar o vizinho como se nossa vida dependesse dele", afirmou. No entanto, ele reconheceu que o eventual desaparecimento do Homo sapiens não deverá representar literalmente o fim do mundo. Alguma forma de vida, como sempre, escaparia à hipotética sexta extinção em massa.
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